Saturday, November 19, 2005

Assessoria e Protocolo

Na mesma área de actuação, vários dos meus colegas encontram-se a abordar vários temas sobre a temática em análise.

1 Comments:

Blogger HCM said...

Expresso A praxe e os seus críticos 12-12- 98

Como em Outonos anteriores, volta a discutir-se a praxe académica. É surpreendente a sua reaparição em Coimbra depois de tantos anos de interrupção mas, ainda mais, o facto dela ter sido implantado nas novas Universidades por jovens que nunca passaram por Coimbra.
A praxe tem tido defensores e críticos, quase todos inflamados--uns apoiam-na saudosamente, outros rejeitam-na em bloco, invocando exageros (por esta razão rejeitar-se-iam os valores da religião, da liberdade de imprensa, da revolução francesa ou do 25 de Abril).
A praxe, como fenómeno social, é um reflexo da comunidade onde se desenrola; as formas concretas que assume (a praxe académica como a liturgia das religiões, das ideologias--religiões laicas-, dos partidos políticos, dos grupos desportivos) revelam a sociedade. A sua reaparição merece análise e a sua degenerescência exige crítica -- por vezes severa, que não creio ter sido ainda feita. Matar o mensageiro não evita as más notícias. Tendo vivido a praxe no meu tempo, julgo ter o distanciamento suficiente para um olhar desapaixonado.
Não me parece que os aspectos até agora abordados sejam os essenciais. A meu ver, um dos mais graves é a perversão da cerimónia iniciática em espectáculo exibicionista. Mas não é desse mesmo mal que hoje padece a justiça, a ciência e a religião ?
Da praxe, critica-se fundamentalmente o traje e a liturgia da iniciação do caloiro.
A capa e batina é tida como uma farda (um hábito) uniformizante que impediria a manifestação da personalidade individual. Curiosamente esta crítica é assumida por gurus na moda (intelectual e a outra), figuras habituais da TV onde surgem sempre impecavelmente vestidos * (isto é, fardados de acordo com os padrões do estrato social dominante). Ao vê-los e ouvi-los, é o estatuto dos muito bem instalados que se revela. A apologia do politicamente correcto ou a irreverência conformada-- o que se critica na praxe, ali está exemplarmente definido.
Monjes que nem precisariam do hábito - quase todos exalando hábito do poder.
Esquece-se que a capa e batina também representava (falo do meu tempo) uma atenuação das diferenças sociais de origem do estudante. A mesma capa -- a dos caloiros não se distinguia da dos veteranos -- era usada tanto nas actividades diárias como nas solenes -- dos exames finais ao baile da "Queima". Todos os estudantes podiam ter uma capa; quantos portugueses podem hoje vestir como os seus críticos ?
Os estudantes que usavam capa e viviam a praxe, nem por isso deixaram de manifestar-se contra o DL 40.900, que pretendia arregimentar a Associação Académica em 1956, de se rebelar em 1962 e, em 1969, de capa e batina, ousaram interpelar "S.Excia o venerando Chefe de Estado", desencadeando a crise académica com uma paralisia da Universidade, greve aos exames e a suspensão da praxe em Coimbra. Se o poder lhes negava direitos elementares de cidadania, recusaram desempenhar o papel que o poder esperava deles, e suspenderam os símbolos da sua condição--a praxe. Suspender a praxe foi, naquelas circunstâncias, a forma mais digna de a exercer.
Os críticos não parece darem-se conta que a praxe era também uma caricatura duma sociedade rigidamente estratificada e das tremendas dificuldades de qualquer tentativa de ascensão social--salvo para os que sabiam já ter um lugar reservado; estes, tudo o que esperavam da Universidade era o "canudo"--a justificação social do seu papel geneticamente determinado. Não admira que desdenhassem aristocraticamente a praxe "dos outros" -- brâmanes na Universidade; eram os "póneis".
"A Universidade era, com efeito, uma grande escola de revolução: -e pela experiência da sua
tirania aprendíamos a detestar todos os tiranos, a irmanar com todos os escravos." Eça
Os actuais mentores da opinião pública que não hesitam em dissertar sobre qualquer tema, têm normalmente opiniões moderadas sobre os problemas da sociedade, mercê do olímpico distanciamento dos problemas que os não atingem. Ao analisar a praxe, assumem surpreendentes atitudes radicais com uma arrogância suspeita.
O primeiro ano é difícil para todos os caloiros, agravado por problemas pessoais de alguns e pelos excessos de uns quantos "tenebrosos" praxistas. O exercício colectivo da praxe tendia a neutralizar esses excessos. A esmagadora maioria dos caloiros integrava-se sem dificuldade, tanto mais que sabiam que, para o ano, todos deixariam de o ser e que todos os outros já o tinham sido.
A praxe representaria uma inaceitável humilhação do caloiro na iniciação universitária, argumentam os críticos; é verdade que tal acontecia nalguns casos -- "sua besta", "três graus abaixo de cão, dois abaixo de polícia" -- mas, como são encarados pelos bem-falantes/bem-instalados que criticam a praxe, todos os que não falam, não pensam, não vestem, não frequentam, nem ganham como eles? Quantos dos "outros" conseguem integrar-se nesse círculo dominante?
Havia alguns para quem a praxe nada dizia--não eram obrigados a usar capa e, passado o primeiro ano, fariam o que queriam.
Havia outros que não conseguiam ultrapassar a zangada birra inicial. Atribuíam à praxe a origem de todos os males--os seus e os alheios--o fogo do inferno, o terramoto de 1755, o comunismo, o conflito na Bósnia, a corrupção e, provavelmente, a SIDA -- eram os "caloiros eternos".

Coimbra Novembro 1998
H. Carmona da Mota

* "...a televisão é um espectáculo em que o guarda-roupa é um dos acessórios fundamentais.....
Haverá então na Informação uma etiqueta estrita a cumprir? Parece que sim..."
Cristina Duarte. A Moda da Imagem. Expresso Revista 1278, 25 Abril 1997




Não me parece que os aspectos até agora abordados sejam os essenciais. A meu ver, o mais grave é a perversão da cerimónia em espectáculo exibicionista. Mas não é desse mesmo mal que hoje padece a justiça, a ciência e a religião ?


Vejamos o que escreveu Ramalho Ortigão acerca destas espúrias evoluções: "o estudante de batina, meias altas, cabeção e volta é uma espécie extinta hoje na série zoológica da Universidade". É que "o grave uniforme escolar decompôs-se pelo modo mais irreverentemente pelintra. O cabeção e a volta foram substituídos pelo colarinho postiço e pela gravata do futriquismo liró. A batina degenerou num casaco gebo e mestiço, de padre à paisana. A calça escorreu inartística e besta, pela perna abaixo, esbeiçando apolainada sobre a odiosa bota de elásticos. Assim o belo costume histórico da antiga universidade se perverteu sem se reformar, reduzido a uma aproximação cenográfica ao entremez barato ou de zarzuela pobre".

O Marquês de Pombal quis acabar com este trajo aquando da reforma que fez da Universidade. Deveria ser demasiado jesuítico para o seu gosto. Mas..., "representou-se-lhe porém, que a Universidade e o País tinham simpatia por aquele uniforme tradicional; que, além disso, para os pobres tinha a vantagem de ser mais barato, que estabelecia melhor semelhança entre estudantes, que lhe poupava inúteis despesas e os livrava de vaidosas ostentações de luxos".

Sinais Ostensivos (II)
Por HELENA MATOS
Público, 27 de Dezembro de 2003
Sobre a questão estrita do uso de sinais religiosos ostensivos nas escolas, creio ser este um excelente pretexto para se recuperarem, nas escolas públicas, os democraticíssimos uniformes. Saneados há décadas em nome do direito à diversidade, os ditos uniformes, batas, bibes e quejandos nunca impediram os jovens de serem diversos (antes pelo contrário!) e sobretudo mantinham arredado das escolas esse dispendioso e fútil universo que dá pelo nome de roupa de marca. A este mérito, que já de si é imenso, acrescentaria esta simples medida: o acabar, nas escolas, com a polémica dos sinais ostensivos, sejam eles duma fé ou do poder de compra.

"...se instituisse o uso de uniformes escolares. Esta medida teria resultados preciosos para a economia das famílias e para a iniciação ética dos estudantes Recordo com nitidez os intermináveis amnos de escárnio e segregação a que eram votadas as rapargas pobres... porque as suas roupas eram velhas e fora de moda" Inês Pedrosa Expresso(Única) 28-2-2004.

2:53 PM  

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